Diminuem as chances de juros de um dígito em 2012

Quando ninguém esperava novidades, o Banco Central conseguiu surpreender. O último recado de seu presidente Alexandre Tombini em 2011 fez diminuir a chance dos juros caírem para um dígito no ano que vem. Depois que o BC começou a baixar a taxa em agosto, a sinalização do Copom indicava que os cortes continuariam por mais tempo, com os tais “ajustes moderados”, podendo chegar a 9,5% em meados de 2012.

Foi o Relatório de Inflação, divulgado todo final de cada trimestre, que gerou a mudança nas expectativas. Distribuído na quinta-feira pelo BC, o relatório trouxe informações sobre a trajetória da inflação até o final de 2013. Más notícias! O índice oficial usado pelo BC, o IPCA, pode permanecer acima da meta de 4,5% por mais tempo do que o mercado esperava.

A reação foi imediata. Os juros negociados no mercado futuro subiram e passaram a indicar que, para cumprir a meta de inflação lá em 2013, o BC terá que subir os juros em algum momento do ano que vem. O movimento também mostrou que, agora, o espaço para que o Copom continue em seus “ajustes moderados” diminuiu. A queda de 0,50 ponto percentual a cada reunião do Comitê, deve parar quando a taxa de juros básico da economia (Selic) chegar a 10%.

Pelo relatório do BC, as projeções de mercado indicam que o IPCA pode fechar 2013 em 5,3%. Há que se ponderar um certo exagero no tempo das projeções. O modelo utilizado pelo Copom para calibrar os juros e controlar a inflação não é exato, como nenhum outro modelo econométrico o é. Mas, tanto o mercado, quanto o BC, norteiam suas decisões através das expectativas. Se a expectativa com o futuro piora, mesmo que não haja certeza absoluta, os indicadores do presente mudam e passam a corrigir os rumos da economia desde já.

Os analistas têm mais elementos disponíveis para se preocupar com a trajetória da inflação. O mercado de trabalho no Brasil está muito aquecido e o desemprego deve continuar em níveis historicamente baixos durante o próximo ano. A renda dos trabalhadores  está em alta e, mesmo que a economia cresça menos no ano que vem, vai se manter num patamar elevado. O governo segue incentivando o crédito e cortando impostos para ajudar a indústria.

Para falar da personagem principal do cenário, a inflação deve fechar este ano raspando o limite de 6,5% da meta do governo. Mesmo que ela chegue mais perto dos 4,5% em 2012, como o BC insiste em dizer que vai, a pressão para que o índice permaneça acima dos 5% é maior do que os diretores diligentes do Copom podem, sozinhos, combater.

Enquanto o debate sobre o futuro da inflação continua, o governo não arrasta o pé na crença de que o Brasil vai crescer “até 5%” no ano que vem, a despeito do limite para reduzir muito mais a taxa de juros, do BC esperar um PIB de 3,5% e, tão importante quanto isso, do baixíssimo crescimento da economia mundial, este sim certo como dois e dois são quatro.

Quando ninguém esperava novidades, parece que elas vão insistir em aparecer.

Fonte: g1/globo.com